quarta-feira, 29 de agosto de 2007

You gaze at his splendour with eyes you've not used yet

"My, my", they sigh.

Sunny Goodge Street foi uma tarde meio doida do Donovan que deu certo. E, mais de quarenta anos depois, foi uma tarde meio doida minha que deveria ter dado errado, mas que, por um motivo bem definido, deu certo também (engraçado como eu sempre consigo nomear os motivos bons mas nunca os ruins).

O metrô nunca me foi cotidiano, pelo fato do meu (ex) bairro não ter uma estação, mas é inegável que o tube é muito prático. E em algum dia perdido desse último ano lá estava eu, olhando no painel a linha preta, planejando minha chegada ao meu destino em Camden Town, quando me deparei com um nome familiar: Goodge Street.

Uma vontade que eu tive desde que cheguei à Inglaterra foi a de conhecer todas as canções. Waterloo, South Kensington, Victoria, Goodge Street (...). Meu encontro com Waterloo Station aconteceu nos primeiros dias, mas Goodge Street não estava nos meus planos. Eu não imaginava que fosse uma rua daquelas, com metrô e Tesco, perto de Camden Town. Sempre pensei que fosse alguma ruazinha qualquer em Glasgow ou Edimburgo, que eu jamais encontraria. Mas então eis que tava lá no painel, Goodge Street, na linha preta do metrô.

A parada em Goodge Street significou perder a hora do meu encontro com minha amiga em Camden Town, mas significou também o início de muita coisa. Foi a primeira de muitas vezes que juntamos nossas moedas e que comemos sentados na rua vendo as pessoas passarem, que saímos sem rumo por aí e que eu pude cantar "I tell you his name is love, love, love". E agora que eu acordo todos os dias com ele do meu lado, acho que sempre vou lembrar da tarde em que as coisas deixaram de ser planejadas e passaram a tomar um rumo qualquer que nos trouxe até aqui.

"My, my", they sigh.
Os franceses/suíços tem uma mania muito chata que é a de só ver filme dublado. Toda vez que vemos filme aqui é em casa é dublado em francês com legendas em inglês, pra eu entender melhor (ainda que o filme seja norte-americano ou britânico). Ou seja, dublagem no idioma cretino deles e legenda no idioma original. Supimpa!

Mas o pior de tudo é que eles se amarram em mudar nome de personagem quando dá na telha. E mudaram o nome de um dos personagens mais clássicos de todos os tempos.


Já que Leia não é um nome francês, ela virou Princesa Leila.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

While my eyes go looking for flying saucers in the sky

É estranho como às vezes as pessoas inventam cores, cheiros, gostos e todo o resto pro que sonham conhecer. E mais estranho ainda é como, no fim das contas, era tudo imaginação, afinal. A Tower Bridge não tem mais luzes que a Ponte Rio-Niterói, o pão francês não tem mais gosto que o da Rio Lisboa, os campos suíços não são mais verdes que os de São Paulo e nem o mar da Espanha é mais molhado que a praia de Copacabana. Mas eu inventei tanta coisa que acabei me perdendo.

Quando cheguei a Londres, só me vinha uma coisa na cabeça: que aquela era a pior cidade do mundo. O primeiro dia foi horrível. Me vi morando num quarto pequeno numa casa na puta que pariu, sem dinheiro pra táxi, sem ter idéia de ônibus, de trem, sem metrô perto, sem amigos perto, sem minha mãeemeupai perto, sem porra nenhuma. E tudo era cinza. Muito cinza.

E aí que eu tava numa depressão só. Na primeira noite o Felipe me chamou pra das umas voltas e aí foi aquele desespero. Perguntei à dona da casa como chegar no tal lugar, e ela me disse três nomes de estações que eu esqueci e me apontou o trem que eu não vi. No fim, quando consegui, só queria saber de encher a cara, mas pagando em pounds não dá, né.

E a noite terminou pior que começou. Depois de meia-noite só nightbus, e eu não sabia nem pra que lado ficava minha casa. Peguei um maldito táxi que me custou todos os pounds que eu não tinha querido gastar durante a noite. E, claro, até aí eu ainda não tinha visto nada da cidade. Nem ponte, nem relógio, nem roda gigante e nem mesmo o rio. Só aquele subúrbio morto de casas todas iguais.

No dia seguinte eu peguei o trem pela primeira vez. Segundo as instruções que me foram dadas, eu deveria trocar de linha em Waterloo. Waterloo, porra. Até que enfim eu veria algo interessante. Eram umas nove da noite de uma sexta-feira e a cidade parecia muito viva perto da área central, ao contrário de onde eu morava. E, de repete, quando eu menos esperava, a Tower Bridge apareceu, gigante, toda iluminada, do meu lado direito. Nessa hora eu me dei conta que aquilo tudo era Londres. Não era como nos meus sonhos, tinha casas feias em subúrbios mortos, mas tinha alguma magia também.



E então passou-se um mês sem que pudéssemos ver uma nuvenzinha sequer no céu.

ps: Foto ilustrativa que eu encontrei no Google porque eu me amarro nessa ponte.